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Abelhas e Polinização

Dificuldades que se avizinham na prestação de um serviço com milhões de anos?

Não é raro, ainda que incorrecto, associarem-se todas as abelhas à produção e uso que o Homem faz do mel, do pólen, da cera, da geleia real, do própolis ou do veneno que a abelha comum (Apis mellifera L.) permite. Todavia, o maior valor que as abelhas acrescentam a este planeta é inquestionavelmente o serviço de polinização que prestam a uma ampla gama de tipos de ecossistemas terrestres, independentemente do maior ou menor grau de humanização que possam incorporar.

Oitenta por cento da produção agrícola dos primeiros 15 Estados que integraram a agora União Europeia depende do serviço de polinização prestado por insectos (sobretudo por abelhas), quantificado em 15 mil milhões de Euros. Os vastos pomares de amendoeiras do vale central da Califórnia (EUA), cuja sustentabilidade económica depende do aluguer anual de 3 milhões de colónias de abelhas comuns (colónias), geram um mercado de valor superior a 750 milhões de Euros para a apicultura norte americana e expõem uma colossal dependência do serviço de polinização prestado por estes insectos.

Estas duas situações ilustram a importância vital das abelhas (designadamente nalguns dos mais sofisticados sistemas de produção de recursos alimentares) e permitem melhor compreender a preocupação actual com (i) a sustentabilidade do nível de prestação de serviços de polinização que vem sendo garantido pelas abelhas e (ii) as consequências da intensificação a que se assiste nos sistemas de produção apícola. Estes, envolvidos numa espiral de procura de “ganhos de produtividade” a curto prazo, começam a exigir em demasia da biologia da abelha comum, facilitando condições de stress que debilitam as colónias e “convidam” à instalação de elevadas taxas anuais de mortalidade ou morbilidade, sobretudo nos apiários comerciais (sujeitos a sistemas de produção mais intensificados).

As recentes mortes súbitas de milhões de colónias, fenómeno internacionalmente conhecido por “Colony Collapse Disorder” (CCD, Síndrome do Colapso das Colónias) - que, em crescendo de frequência, de magnitude e de amplitude geográfica, não têm ainda origem concreta conhecida para a ciência – significarão, para alguns, que também o preço o mel irá subir... Para outros, que não poderá ser totalmente negativa a existência de um menor número de insectos que nos possam picar... Todavia, um pouco mais de reflexão permitirá, ao comum dos cidadãos, percepcionar que o serviço de polinização está sobre uma fortíssima ameaça antropogénica, com risco eminente de repercussão da sua “quebra de desempenho” na significativa deterioração dos ecossistemas, das cascatas tróficas e da produção de alimentos para o Homem.

António Manuel Murilhas (Prof. Auxiliar na Universidade de Évora e Investigador no Instituto de Ciências Agrárias Mediterrânicas)
Departamento de Zootecnia

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