Riscos costeiros da costa alentejana
À semelhança do que acontece com os litorais de todo o mundo a Costa Alentejana está sujeita às alterações induzidas por eventos naturais ...
À semelhança do que acontece com os litorais de todo o mundo a Costa Alentejana está sujeita às alterações induzidas por eventos naturais como sejam temporais, ciclones, deslizamentos de arribas, tsunamis e subida do nível médio do mar. Estes processos naturais potenciam o risco costeiro quando estão ameaçados tanto o património natural como o humano.
Até ao momento a Costa Alentejana, tem sido em parte poupada às especulações imobiliárias, ao contrário da Costa Algarvia e da costa Norte de Portugal, sendo por isso o risco associado à destruição de edificações humanas menos evidente. Assim, na Costa Alentejana o risco costeiro está centrado na perda de património natural que em determinadas situações, como seja o recuo das arribas costeiras, poderá por em risco a integridade física de quem visita determinadas sectores da faixa costeira e a conservação de habitats naturais de espécies protegidas.
A faixa costeira ocidental portuguesa, entre a Península de Tróia e o Cabo de S. Vicente, compreende duas unidades fisiográficas distintas: o Arco Litoral Tróia-Sines a norte do Cabo de Sines e o Litoral Sudoeste Alentejano e Costa Vicentina, a sul do mesmo cabo.
O Arco Litoral Tróia-Sines corresponde a um litoral arenoso contínuo de praias marginadas do lado de terra por cordões dunares ou por arribas talhadas em sedimentos detríticos mal consolidados.
Ao longo deste litoral as arribas formadas por areias, cascalho e argilas pouco consolidados sofrem erosão sub-aérea lenta mas continua resultante do efeito da precipitação atmosférica. As taxas de recuo são baixas sendo o risco de ravinamento destas arribas mais acentuado entre a Praia do Pinheiro da Cruz e a Praia da Aberta Nova. Neste troço costeiro os temporais no mar induzem a perda temporária de sedimentos da praia (areia) durante os períodos de Inverno, acabando os mesmos por serem repostos de forma natural até ao Verão seguinte. A incidência de temporais mais violentos ou a ocorrência de temporais consecutivos levam à perda de pequenas dunas embrionárias ou à remoção de sedimentos acumulados no sopé de algumas arribas. Ao longo deste troço costeiro a ameaça ao património humano restringe-se por enquanto ao empreendimento turístico Sol-Tróia, localizado na restinga de Tróia, e em períodos limitados no tempo.
O Litoral Sudoeste Alentejano e Costa Vicentina apresenta-se como um litoral rochoso ao longo do qual se individualizam praias de areia ou de cascalho, na sua maioria, confinadas à foz das principais linhas de água ou a baías recortadas nas arribas rochosas. As arribas sofrem recuo em pontos discretos ao longo do litoral em locais onde a queda de blocos de rocha instáveis no topo das arribas (e.g. arenitos consolidados) é induzida pela erosão da base da arriba pelo mar. Ocorrem também movimentos de massa ao longo de superfícies onde a orientação de fracturas e dos planos de xistosidade das rochas em que são talhadas as arribas (e.g. xistos e grauvaques) favorecem a queda de material rochoso que se acumula no sopé da arriba. Estes fenómenos locais induzem taxas de recuo das arribas baixas, podendo ser observados ao longo de toda a costa, como por exemplo na Praia de Monte Clérigo (Aljezur) e a sul de Vila Nova de Milfontes.
Cristina Gama (cgama@evora.pt) (Profª Auxiliar da Universidade de Évora)
Departamento de Geociências e Centro de Geofísica de Évora
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