Num ano de grande fome,
minha família acabou-se.
Eu tinha uma boa enxada
donde tirava sustento,
ia-me de «monte» a «monte»
chegava à porta e dizia:
- lavrador,
eu cavo-lhe a sua herdade!
E no meio das courelas,
A minha enxada luzia.
Viesse o sol que viesse
e a chuva que caísse
e o vento, que vem do norte
e corta como uma foice,
que assobiasse e cortasse:
- minha enxada luzia!
E minha filha crescia,
estava uma moça vistosa.
Tanto que os homens saíam
para as portas das tabernas
dizendo ao vê-la passar:
- Lá vai a Rosa Charneca.
E a minha mulher cantava
Estendendo a roupa, a corar,
sobre esteveiras, ao sol.
Quando veio a grande fome
tudo isto se acabou.
Minha mulher foi para a monda,
lá para o Alto Alentejo.
E minha filha abalou
com uma mulher que ri
e anda de feira em feira,
armando aquela barraca
onde se bebe e se ama.
E numa manhã de inverno,
não pude mais e parti
- pelas estradas do acaso
com a manta de «maltês»!...